Me sinto lisonjeada de poder desfrutar da interpretação que tenho de mim mesma em meio à cultura de massa. Acompanho há tempos uma moça que gosta de cantarolar e escrever o que pensa; ela prefere usar um pseudônimo pois talvez para a sociedade quadrada ela seja apenas uma idiota com uma língua gigante. A partir de agora, faço posse de suas palavras.
Me sinto ingrata boa parte do tempo, não faço bom proveito das amizades que imaginei que tinha e nem dos relacionamentos que tenho. Quando criança meu pai e minha mãe me puseram no balé, me entretive por um tempo e depois saquei-me de lá. É como se essa menina tivesse hiper foco em coisas específicas e depois largasse e não quisesse mais, dizia meu pai. Atualmente moro em um dos cinco distritos de Nova Iorque, amo minha vizinhança, ao contrário de um dos meus namorados que sempre reforçava que aquele bairro era repleto de marginais, para ele aqueles que usam Jordan 1 e bicicleta pelo bairro.
Ali tinha uma moça que dividia o apartamento comigo, mas fiz com que ela fosse; toda vez em que trombava um amigo íntimo meu em nosso banheiro, reforçava aquele estereótipo de que todas as mulheres negras são raivosas. Minha liberdade vale mais. Faço aniversário dia 19 de maio — mesmo dia que Malik el-Shabazz. Isso faz de mim e Malcolm dois taurinos, para alguns somos difíceis de lidar.
Esta aí é Nola Darling. Em 1986 o notável Spike Lee declarou que ela queria tudo. Vivo presa em três relacionamentos com três homens diferentes, gosto dos três, não sei mentir então todos sabem que fico entre eles e isso não me aborrece. Talvez a pressão que eles impõem de ter que escolher entre um faça com que eu sinta mais prazer em continuar vagando.
O que faz sentido, né? A pressão de escolha faz com que tudo fique mais divertido. Ela acha isso e eu muito mais, eu Nola, quer dizer… a moça que cantarola e escreve coisas idiotas e com a língua gigante. Talvez agora eu consiga compreender Nola. Ela é apenas uma jovem adulta do Brooklyn tentando ser dona de seu próprio corpo e desejo.
O sexo já deixou de ser algo extraordinário, o sexo é só sexo; todos dizem que me amam, pra mim o amar é só amar. Talvez esse "ela quer tudo" seja no sentido de que ela é o seu próprio tudo; ela quer ser livre e poder desmistificar esse prazer.
Me sinto como a Senhorita Darling às vezes, gosto de viver em minha própria companhia, mas o desejo fala mais que mil palavras. Não estou dizendo que tenho três namorados, que sou nova-iorquina e etc, não tentem entender ao pé da letra. Me excita a forma com que ela é, mas me aborrece o espaço limitado em que é inserida. Darling, querida, talvez você não queira tudo, você já é tudo.

