Maldito seja o salário que cai apenas no último dia do mês, maldito seja os desorganizados que não compraram ingressos para peças de teatro
Plantada diante da imponência do Teatro Guaíra, ergo meu celular: DOE UM INGRESSO. O sorriso que ofereço é o meu melhor disfarce para a ansiedade. Dizem que ninguém quer ver um estudante de jornalismo furando a fila como imprensa, mas a verdade é que estamos aqui pelo osso, pelo cronograma excruciante da faculdade e pela fome de arte.
Quando uma senhora aponta para o seu filho e diz “Dá um ingresso para ela”, o mundo, antes azul, tinge-se em vermelho carmesim. Cruzo o portal de entrada e sinto o peso do carpete sagrado sob meus pés. Ali dentro, não sou mais acadêmica ou aspirante a jornalista, sou parte de um cosmos, uma consciência diluída na cena, uma esponja absorvendo cada partícula de drama e luz refletida da peça.
Teatro cheio, gente animada, sussurros e risadas, vem aí o Tim Maia. Último dia do musical especial que cruzou o Rio de Janeiro até a capital do Paraná. Eles trazem consigo o legado de um dos maiores cantores da Música Popular Brasileira ou melhor da Música Preta Brasileira. Aqui nós vemos um Tim diferente e igual ao mesmo tempo. Uma voz surreal que transcende gerações, e um homem solitário de coração partido entregue a boemia da vida.
Alguns dançam em suas poltronas, outros cantam todas as músicas, e a maioria quando olho ao redor, está simplesmente hipnotizada pelos atores, figurinos e luzes brilhantes. Nessa curta hora o teatro entrega o fôlego de vida que procuramos numa semana cansativa, entrega aquela memória de sonhos e planos que ficam soterrados em nossa mente.
Não estamos na Broadway, em Londres ou Paris, nem em qualquer outro espetáculo do exterior. Estamos no Brasil, e aqui a banda toca do nosso jeito, o autêntico jeitinho brasileiro. Com quase uma semana de festival, sofro com ingressos esgotados, horários apertados e demandas atrasadas, é o que acontece quando se concilia estudo e faculdade: o tempo que sobra é quase escasso.
Enfim, caros leitores, fui embora de Uber Moto às 23h30. Acordei no dia seguinte para mais uma cobertura do festival que, embora ainda não tenha sido publicada, deixo aqui este meu curto relato clandestino.
Créditos da imagem: Capa do álbum Baro Biao: World Wide Wedding (1999), da banda Fanfare Ciocărlia.

