terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Algumas dicas ao novos pequenos gafanhotos do jornalismo

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A jornada de calouro no Departamento de Comunicação pode ser mais suave com esses apontamentos

O calendário acadêmico começou, e para a grande maioria dos novos calouros, recém-saídos do ensino médio, o Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Paraná — dizem as más línguas, a melhor do Sul do mundo — é a primeira experiência universitária.

Lembro-me dos dias de calouro. E falo, sem ressentimentos, que fui um desses que penou — e pena até hoje — para se adaptar. No fim das contas, cada indivíduo tem uma forma de levar a vida universitária, o tempo próprio de adequação e formação de afinidades, os momentos de conquistas, quedas e aprendizados. Cada um de nós cumpre uma jornada do herói específica, e o ano de calouro seria o grande “chamado à aventura”, que, segundo Joseph Campbell, simboliza o momento em que o protagonista — o herói, ou seja, você — é retirado do mundo comum para um desafio.

E não se engane: essa jornada pode ser doce ou amarga. Normalmente é uma mistura dos dois. Em um departamento com quase 300 alunos vivendo enclausurados no meio do Juvevê, com pouquíssimas opções de barzinhos e diversões que custem menos de R$ 50, a convivência do dia a dia às vezes é dura. É necessário sempre ampliar o próprio modo de ver o mundo e se adaptar ao próximo para manter a harmonia, não causar um surto geral e colocar abaixo o predinho amarelo ou explodir o CACOS.

Pensando na jornada heroica do calouro, consultei colegas do último ano da faculdade e levantei algumas dicas. Preferi não chamar de conselho. Ainda não sou tão velho para dar conselhos, e o ditado diz que, se fossem bons, seriam vendidos. Espero, primeiramente, que vocês leiam e que algo do que será listado adiante sirva para o bem, tanto individual quanto coletivo. Boa leitura!

Dica nº 1: o ensino médio acabou

Novos alevinos do jornalismo, é extremamente necessário entender este primeiro ponto. E quanto mais você demorar para absorver, pior será o sofrimento. A universidade é um novo lugar. Totalmente diferente do seu colégio, seja estadual, particular, militar ou Instituto Federal.

Neste novo espaço, espera-se um abandono gradual da conduta adolescente para a adoção de uma postura adulta. Então, vamos lá. Você não pode mais correr pelos corredores ou papear incessantemente no meio da aula. Não é mais necessário demonstrar conhecimento a todo custo durante as aulas — o chatão, que fica a todo momento com o dedinho para cima, acaba ganhando a pecha de “insuportável”.

Tudo o que você fizer ou deixar de fazer é responsabilidade sua. Todo ganho e toda perda.

Cuidado com o que você fala, para não morrer pela boca. Não acuse nem insinue coisas sobre as pessoas. Já vi alunos respondendo judicialmente por inventarem mentiras, seja pelos corredores ou nas redes sociais. E outra: não são raros os casos de pessoas que quase tiveram a vida social arruinada por acusações falsas.

Na universidade, você passa a responder por tudo como um adulto. Isso faz com que seja necessário abandonar as velhas práticas da infância e adolescência para, gradualmente, tornar-se alguém mais maduro.

Dica nº 2: para quem não tem nada, um portfólio pode ser tudo

É preciso organizar as suas produções. E elas vão começar logo no primeiro semestre, principalmente na matéria de fotografia, do magnífico professor Luís, e na disciplina de Redação 1, do genial José Carlos Fernandes.

Você pode começar organizando tudo em um Drive, separando as produções por tipo: fotografia, audiovisual, texto. Ter as produções salvas e organizadas ajudará na montagem do seu portfólio, que será, muito provavelmente, o seu grande diferencial na busca pelo primeiro estágio. “Ah, mas tem que pensar no estágio logo no primeiro semestre?” Alguns dirão que não, mas eu digo que sim. Pensar o mercado desde sempre é necessário. Afinal, é do seu trabalho como comunicador que você viverá. O último emprego que consegui, e onde estou até hoje, foi conquistado por um diferencial na aba de “audiovisual” do portfólio. Se você for atrás, ouvirá muitos outros relatos de pessoas que se destacaram também por motivos semelhantes.

Procure na internet por modelos, existe a opção de criar no Canva e no Drive. Mas um portfólio online, no formato de site, fica muito mais “elegante” e apresentável, além de passar a impressão de maior profissionalismo. O site Wix.com pode ser uma boa opção.

Dica nº 3: pense sempre no mercado

Existe um assunto quase proibido no Departamento de Comunicação: o mercado de trabalho. Você vai passar os quatro anos da graduação sendo incentivado a pesquisar, a fazer extensão, a produzir artigos e a participar de congressos. Mas ninguém — ou quase ninguém — vai te falar como você vai pagar o seu aluguel depois de formado. Mas eu direi: você vai pagar trabalhando. Independentemente do modo de produção histórico, o trabalho é sempre a força que faz a engrenagem girar.

Alguns discursos serão muito sedutores, principalmente de professores que estão há décadas no serviço público, com um bom cargo e um salário robusto. Mas não se iluda. Essa é uma realidade para pouquíssimos. Para cada professor universitário e pesquisador bem-sucedido, existe por detrás uma legião de mestres, doutores e pós-doutores desempregados.

Não estou dizendo “desista de ser professor universitário e pesquisador no Brasil”. O que quero dizer é: não aposte apenas nisso, porque é MUITO DIFÍCIL se dar bem nessa vida. O correto é construir em todas as frentes: a acadêmica, a de pesquisa e também a de mercado. Dessa forma, você terá mais “fichas” para barganhar na sua carreira como comunicador.

Dica nº 4: networking é (quase) tudo

Ao longo dos quatro anos da graduação, você notará que alguns alunos estão sempre inseridos em projetos com bolsa; há também aqueles que adentram mais facilmente na pós-graduação; e há os que conseguem boas vagas de emprego por indicação. E por aí vai.

O segredo por detrás dessas pessoas que estão no holofote, recebendo todos os mimos e paparicos, é o networking. As boas relações interpessoais que você construídas ao longo da vida. E a universidade brilha como um momento-chave dessa construção.

É sério. Conheço muita gente que, até depois de formada, é privilegiada em indicações estratégicas para cargos, freelas, bolsas etc. No fim das contas, a corrida acadêmica e profissional não é meritocrática, nem sequer uma disputa de todos contra todos. A magia de verdade está em criar uma amizade com os competidores — e, se for possível, até com o dono do campeonato.

Você não precisa ser o melhor; muitas vezes, basta ser o mais bem-quisto. Por isso, pense bem. Talvez a intriga boba que você criar nos primeiros anos da faculdade possa te tirar de um processo seletivo no futuro. Talvez aquele professor que você julgou irrelevante, e com quem preferiu criar um desentendimento, vá preferir o seu coleguinha, mais gente fina, para uma indicação. Ah, e este ponto também é crucial: aluno que briga com professor é burro. Essa é uma luta invencível e que só vai te prejudicar.

Dica nº 5: ande na rua, leia, vá ao cinema e ao teatro

Como este texto é direcionado aos alunos de jornal, eu não poderia deixar de citar: ande na rua, leia, vá ao cinema e ao teatro.

Primeiramente: a nossa geração ultra-preguiçosa não põe mais o pé no asfalto. Qualquer distância de 1,5 km exige um Uber. Esqueça isso. Quem não anda na rua não conhece a cidade; quem não conhece a cidade não conhece gente; e o jornalista que não conhece a rua e os muitos tipos de gente é um farsante.

Ler é outro ponto essencial, e para muitos, com o cérebro em processo de “tiktokização”, pode ser um martírio. Tem gente que considera normal se formar em jornalismo sem ter lido o Nelson Rodrigues ou o Rubem Braga. Para mim, isso é o equivalente a estudar Artes Visuais e ao fim do curso não saber quem foi Van Gogh ou Édouard Manet.

O que acontece agora entre os estudantes de jornalismo é a crise da falta de referência. Toda nova geração se acha o máximo — e a nossa talvez seja a mais prepotente e mais ignorante. Você precisa, sim, ler os clássicos da nossa literatura e os clássicos do jornalismo. Por mais que doa, e seja muito difícil, em tempos de Reels, YouTube Shorts e TikTok, ler 20 páginas de um livro sem desbloquear o celular. Deixe doer, mas leia. E digo mais: jornalista que não conhece Nelson Rodrigues ou Rubem Braga também é um farsante.

Por fim, o teatro e o cinema entram nessa crítica sobre a falta de repertório. Consumir filmes e peças vai adicionar camadas sofisticadas ao seu arcabouço cultural e melhorar a sua capacidade de storytelling — tópicos que são essenciais ao bom jornalista. Afinal, somos todos grandes contadores de histórias.

Dica nº 6: seja feliz

No fim das contas, ser feliz é o que mais importa. Você pode optar por ignorar todas as regras acima, se quiser. As jornadas possuem pontos de similaridade e confluência, mas, no fim, pequeno pupilo do jornal, você construirá o próprio caminho do modo que preferir.

Lembre-se de aproveitar tudo intensamente: amar, odiar, comemorar, chorar e sorrir. A vida acadêmica é um sopro. Quando você vê, foram-se os quatro anos. No mais, sejam todos bem-vindos ao Departamento de Comunicação e à Universidade Federal do Paraná.

Muito obrigado pela leitura. A equipe do Pauta Clandestina deseja um bom início de ano a todos.


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