A jornada de calouro no Departamento de Comunicação pode ser mais suave com esses apontamentos
O ano letivo está oficialmente rolando, e para a grande maioria dos novos calouros recém-saídos do ensino médio, o Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Paraná — dizem as más línguas, a maior do Sul do mundo — é a primeira experiência universitária.
Lembro-me dos dias de calouro. E falo, sem ressentimentos, que fui um desses que penou — e pena até hoje — para se adaptar. No fim das contas, cada indivíduo tem uma forma de levar a vida universitária, o tempo próprio de adequação e formação de afinidades, os momentos de conquistas, quedas e aprendizados.
Neste departamento, cada um de nós cumpre uma jornada específica. Para aqueles que acabaram de sair do colégio, o primeiro ano na universidade seria um tipo de ‘chamado à aventura’, que, para o mitólogo Joseph Campbell, simboliza o momento em que o herói é convocado a enfrentar um novo desafio e deixar o mundo comum.
E não se engane: essa jornada pode ser doce ou amarga. Normalmente é uma mistura dos dois. Em um departamento com quase 300 alunos vivendo enclausurados no meio do Juvevê, com pouquíssimas opções de barzinhos e diversões que custem menos de R$ 50, a convivência do dia a dia às vezes é dura. Por isso, é necessário sempre ampliar o próprio modo de ver o mundo e se adaptar ao próximo para manter a harmonia, não causar um surto geral e colocar abaixo o predinho amarelo ou explodir o CACOS.
Pensando na jornada heroica do calouro, consultei colegas do último ano da faculdade e levantei algumas dicas. Preferi não chamar de conselho. Ainda não sou tão velho para dar conselhos, e o ditado popular diz que, se fossem bons, seriam vendidos. Espero que vocês leiam e que algo do que será listado adiante sirva para o bem, tanto individual quanto coletivo. Boa leitura!
Dica nº 1: o ensino médio acabou
A universidade é um novo lugar. Totalmente diferente do seu colégio, seja estadual, particular, militar ou Instituto Federal.
Neste novo espaço, espera-se um abandono gradual da conduta adolescente para a adoção de uma postura adulta. Agora, tudo o que você fizer ou deixar de fazer é responsabilidade sua. Todo ganho e toda perda.
Por isso, é necessário trabalhar desde cedo a organização, os trabalhos, os horários e os compromissos. Ninguém irá te carregar no colo ou te impulsionar para cima. É claro que existem alguns que se escoram nos colegas ao longo do curso, mas uma hora ou outra, os "folgados" são sempre abandonados pelo caminho.
Outro ponto que precisa ser ressaltado aqui é a famosa "fofoca", que alguns dizem ser edificante, mas que pode acabar fazendo você acordar com uma cartinha extrajudicial no Whatsapp. Ano passado, tivemos uma situação muito grave, sobre um aluno que foi difamado via e-mail. O caso se tornou conhecido por todos do departamento e o aluno em questão, por pouco, não teve a vida social destruída no campus.
Cuide com aquilo que você diz sobre os outros. A velha fofoquinha e a intriguinha colegial pode destruir a experiência acadêmica do próximo. Ou, até mesmo, te fazer pagar uma boa indenização por danos morais.
Dica nº 2: para quem não tem nada, um portfólio pode ser tudo
É preciso organizar as suas produções. E elas vão começar logo no primeiro semestre, principalmente na matéria de fotografia, do mago da foto professor Luís, e na disciplina de Redação 1, do genial José Carlos Fernandes.
Você pode começar organizando o que produzir em um Drive, separando as produções por tipo: fotografia, audiovisual, texto etc. Ter as produções salvas e organizadas ajudará na montagem do seu portfólio, que será, muito provavelmente, o seu grande diferencial na busca pelo primeiro estágio. “Ah, mas tem que pensar no estágio logo no primeiro semestre?”, alguns dirão que não, mas eu digo que sim. Pensar no mercado é crucial. Afinal, é do seu trabalho como comunicador que você viverá.
Inclusive, o último emprego que consegui, e onde estou até hoje, foi conquistado porque meu chefe achou interessante as produções audiovisuais do meu portfólio. Se você for atrás, ouvirá muitos outros relatos de pessoas que se destacaram por motivos semelhantes.
Procure na internet por modelos. Existem as opções de criar no Canva ou no Drive, mas um portfólio online, no formato de site, fica muito mais “elegante” e apresentável, além de passar a impressão de maior profissionalismo. O site Wix.com pode ser uma boa opção.
Dica nº 3: pense sempre no mercado
Existe um assunto quase proibido no Departamento de Comunicação: o mercado de trabalho. Você vai passar os quatro anos da graduação sendo incentivado a pesquisar, a fazer extensão, a produzir artigos e a participar de congressos. Mas ninguém — ou quase ninguém — vai te falar como você vai pagar o seu aluguel depois de formado. Mas eu direi: você vai pagar trabalhando.
Independentemente do modo de produção histórico, o trabalho é sempre a força que faz a engrenagem girar.
Alguns discursos serão muito sedutores, principalmente de professores que estão há tempo no serviço público, com um bom cargo e um salário robusto. Mas não se iluda. Essa é uma realidade para pouquíssimos. Para cada professor universitário e pesquisador bem-sucedido, existe por detrás uma legião de mestres, doutores e pós-doutores procurando trabalho.
Não estou dizendo “desista de ser professor universitário e pesquisador no Brasil”. O que quero dizer é: não aposte apenas nisso, porque é MUITO DIFÍCIL se dar bem nessa vida. O correto é construir em todas as frentes: a acadêmica e a de mercado. Dessa forma, você terá mais “fichas” para barganhar na sua carreira como comunicador.
Dica nº 4: networking é (quase) tudo
Ao longo dos quatro anos da graduação, você notará que alguns alunos estão sempre inseridos em projetos com bolsa; há também aqueles que adentram mais facilmente na pós-graduação; e há os que conseguem boas vagas de emprego por indicação. E por aí vai.
O segredo por detrás dessas pessoas que estão no holofote, recebendo todos os mimos e paparicos, é o networking. As boas relações interpessoais que você constrói da sua trajetória. E a universidade brilha como um momento-chave dessa construção.
Conheço muita gente que, até depois de formada, é privilegiada em indicações estratégicas para cargos, freelas, bolsas etc. No fim das contas, a corrida acadêmica e profissional não é meritocrática, e nem sequer uma disputa de todos contra todos. A magia de verdade está em criar uma amizade com os competidores, e, se for possível, até com o dono do campeonato.
Você não precisa ser o melhor. Muitas vezes, basta ser o mais bem-quisto. Por isso, pense bem. Talvez a intriga boba que você criar nos primeiros anos da faculdade possa te custar uma vaga no futuro. Pode ser que aquele professor, que você criou um conflito no primeiro semestre, prefira o seu coleguinha, mais gente fina, numa indicação para trabalho.
Dica nº 5: ande na rua, leia, vá ao cinema e ao teatro
Como este texto é direcionado aos alunos de jornal, eu não poderia deixar de citar: ande na rua, leia, vá ao cinema e ao teatro.
Primeiramente: a nossa geração ultra-preguiçosa não põe mais o pé no asfalto. Qualquer distância de 1,5 km exige um Uber. Esqueça isso. Quem não anda na rua não conhece a cidade; quem não conhece a cidade não conhece gente; e o jornalista que não conhece a rua e os muitos tipos de gente é um farsante.
Ler é outro ponto essencial, e para muitos, com o cérebro em processo de “tiktokização”, pode ser um martírio. Tem gente que considera normal se formar em jornalismo sem ter lido o Nelson Rodrigues ou o Rubem Braga. Para mim, isso é o equivalente a estudar Artes Visuais e ao fim do curso não saber quem foi Van Gogh ou Édouard Manet.
O que acontece agora entre os estudantes de jornalismo é uma baita crise da falta de referência. Toda nova geração se acha o máximo — e a nossa talvez seja a mais prepotente e mais ignorante. Você precisa, sim, ler os clássicos da nossa literatura e do jornalismo. Por mais que doa e seja muito difícil, em tempos de Reels, YouTube Shorts e TikTok, ler 20 páginas de um livro sem desbloquear o celular. Deixe doer, mas leia. E digo mais: jornalista que não conhece o Nelson Rodrigues ou o Rubem Braga é um farsante também.
Por fim, ir ao teatro e ao cinema entra nessa crítica sobre a falta de repertório. Consumir filmes e peças vai adicionar camadas sofisticadas ao seu arcabouço cultural e melhorar a sua capacidade de storytelling — tópicos que são essenciais ao bom jornalista. Afinal, somos todos grandes contadores de histórias.
Dica nº 6: seja feliz
No fim das contas, ser feliz é o que mais importa e você pode ignorar todos os apontamentos acima. As jornadas possuem pontos de similaridade e confluência, mas, no fim, pequeno pupilo do jornal, você construirá o próprio caminho do modo que preferir.
Lembre-se de aproveitar tudo intensamente: amar, odiar, comemorar, chorar e sorrir. A vida acadêmica é um sopro. Quando você vê, foram-se os quatro anos.
No mais, sejam todos bem-vindos ao Departamento de Comunicação e à Universidade Federal do Paraná.
Muito obrigado pela leitura. A equipe do Pauta Clandestina deseja um ótimo ano a todos.
