Entre bares e contradições

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Com cerca de três quilômetros de extensão que atravessam o Batel — bairro mais nobre de Curitiba — como uma lança, a Avenida Vicente Machado concentra restaurantes, bares, cafés e contradições. Em paralelo aos estabelecimentos capazes de assustar pelos preços, o petit-pavé das calçadas serve de moradia para pessoas que pouco possuem além das roupas do corpo.

Existe uma certa romantização da figura do morador de rua dentro do capitalismo. Na Vicente Machado, isso é perceptível. Um fascínio que transforma a miséria em símbolo moral — ora da pureza absoluta, ora da degradação completa. Há um abismo entre Diógenes e esse sujeito quase desumano do qual tantos preferem enxergar quem vive nas ruas.

Enquanto alguns aproveitam o happy hour animado da via para aliviar o desgaste de um dia de trabalho, há quem vire a noite implorando por opióides para suportar o peso da própria existência. E isso não é culpa de nenhum dos dois lados.

Em um passeio pela avenida, durante uma ida a um dos sebos que ainda resistem na região, deparei-me com parte dessa contradição. Já próximo à Praça Osório, observei alguns homens dormindo sob uma das marquises milionárias da Vicente Machado. Cenas assim não despertam pena em mim, mas revolta com o mundo. Entre os poucos pertences espalhados pelo chão havia pedaços de papelão, alguns agasalhos e um livro. Este último permanecia guardado com um cuidado quase solene, como uma joia rara em meio aos demais objetos, embora carregasse as marcas do tempo e da exposição à fachada daquele edifício.

Quando vi o livro surrado de longe, enquanto carregava nas mãos um exemplar tão gasto quanto de uma coletânea de poesias de Carlos Drummond de Andrade, não consegui compreender do que se tratava. A curiosidade me puxou para mais perto. A capa amarela, com letras brancas já desgastadas pelo tempo, dificultava a leitura do título, mas fazia o volume reluzir sob a luz do sol.

Não era um livro de poesias, um romance barato ou algum clássico de autoajuda. Tratava-se de uma introdução ao universo dos coaches, tão difundido hoje nas redes sociais e personificado por figuras como Pablo Marçal. Não sei se o livro era dele. Talvez isso nem importe. O desconforto que antes apenas rondava a cena tornou-se ainda mais difícil de suportar.

Será que alguém entregou o livro àquele homem acreditando protagonizar um gesto heroico? Será que ele o encontrou em alguma lixeira da região e se interessou pelo título? Ou teria entrado no mesmo sebo em que comprei um Drummond e levado a obra por algumas moedas? É impossível saber. Mas qualquer uma dessas possibilidades me provoca algo difícil de traduzir em palavras.

Não serei eu a demonizar alguém em condições assim. Tampouco a transformá-lo em símbolo de virtude ou liberdade. Há um abismo entre Diógenes e esse sujeito quase desumano do qual tantos preferem enxergar quem vive nas ruas.

Segui em frente, peguei meu ônibus para casa e fui embora.

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