Noutro dia uma colega comentou comigo:
— Ouvi um boato na faculdade de que você tem uma biblioteca em casa.
— Uma biblioteca? — respondi
— É, daquelas grandes, que a gente vê nos filmes, sala de leitura mesmo. É verdade?
Depois de rir, desmenti o rumor. Expliquei que moro em um apartamento mais ou menos pequeno, que não tem espaço para isso, mas quem dera. Mais tarde, me arrependi de não ter dado corda. Imaginem, se eu tivesse confirmado, qual seria a próxima invenção dos fofoqueiros? “Ouvi um boato de que seu pai vai ter que vender o haras, está tudo bem? ” Ou então: “mande meus parabéns ao seu mordomo, fiquei sabendo que hoje é o aniversário dele. ” Mais um mês dessas histórias e eu virava o Ferris Bueler do departamento de comunicação.
Conhecendo o modus operandi da rádio-corredor da universidade, tenho uma ideia de como nasceu toda essa história. De fato, tenho muitos livros no meu quarto, então suspeito que algum amigo que me visitou tenha contado para outro e no meio do caminho a coisa se distorceu. E tudo bem, pois o rumor é inofensivo. Ainda assim, fiquei meio encasquetado. Com quantos livros se faz uma biblioteca?
Contando com os que li na infância, que representam a maioria, inclusive, minha coleção beira os 400 livros. Desses, comprei 124 (surrupiei alguns da biblioteca do meu pai, confesso). Considero essas obras parte do meu “acervo oficial”, pois venho juntando todas de forma consciente, desde o começo da adolescência. Digo juntar, e não “ler”, porque só li, de fato, 50. O que significa que há 74 livros parados na estante, aguardando ansiosos pelo dia em que serão abertos e, portanto, libertos do pó.
Não tenho problemas com a leitura. Pelo contrário: estou sempre lendo alguma coisa. O que acontece é que toda vez que ameaço desenterrar algum título da estante, outro mais urgente se põe no caminho. Às vezes por necessidade, para alguma disciplina da faculdade, às vezes por parecer mais interessante. Além disso, também sou um comprador compulsivo de livros. Tenho um pouco de vergonha de admiti-lo, mas é verdade.
Vivo pulando de sebo em sebo — ultimamente tenho batido ponto na Banca do Davi, perto do Shopping Ventura, e no Livros Lidos, na República Argentina — e estou sempre de olho nas ofertas daquele site famoso com nome de floresta. Sempre adquiro um título novo já sabendo de seu destino, e tento me confortar com filosofias baratas, como aquela oriental, segundo a qual “a biblioteca do indivíduo é do tamanho da sede de seu conhecimento”. Sede eu tenho, mas meu oásis é tão vasto que acabo desprezando tanta água.
Enfim, dos 74 não lidos, decidi separar cinco. Quem sabe assim eu tome vergonha na cara e os leia. Já deixo avisado ao leitor: não se engane pelo título da crônica, pois a lista que montei é totalmente aleatória. Cada obra entrou por algum motivo específico que julguei ser interessante. Deixei de fora Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, Agatha Christie e outros clássicos, modernos e antigos. Lá vai:
MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS – MACHADO DE ASSIS
O primeiro Machado que li foi há quatro anos, bastante influenciado pelo professor de literatura Guilherme Shibata, que ensinou a turma a ler Dom Casmurro. Depois desse, li Quincas Borba, Esaú e Jacó, O Alienista, os contos e as crônicas. Só não li o Brás Cubas. Venho guardando para o momento certo, quero ler com a cabeça fresca, saboreá-lo. Talvez por ser o único que me falte do Bruxo. Enfim, coisas futuras.
CRISTO PAROU EM EBOLI – CARLO LEVI
Este descobri através de um texto de um homem que diz ter ouvido Antonio Candido — maior crítico literário brasileiro — afirmar que seu livro preferido era Cristo Parou em Eboli, sem elaborar muito a razão. A obra relata o exílio de Carlo Levi no Sul da Itália, durante o regime fascista. Na época eu queria aprender italiano, então comprei uma edição antiga, na língua original. Hoje não falo italiano, não li o livro, nem achei mais a crônica e o autor.
A VIA CRÚCIS DO CORPO – CLARICE LISPECTOR
Conforme a biblioteca crescia, percebi que era preciso diversifica-la. Li mais homens que mulheres. De Clarice só lembro de ter lido alguns contos clássicos, na escola, como Felicidade Clandestina e O Ovo e a Galinha. Achei A Via Crúcis do Corpo por um preço bom em um sebo, e achei que seria um bom começo.
FANTASMA – JOSÉ CASTELLO
Pego rabeira em Clarice para indicar um romance do jornalista que escreveu o melhor perfil a respeito da escritora: “A Senhora do Vazio”. Conheci esse texto no primeiro mês da faculdade de jornalismo, e fiquei fascinado. Ainda nesse mês, coincidentemente, José Castello faria uma oficina de 8 aulas sobre escrita criativa em Curitiba, gratuito, mas com vagas limitadas. Inscrevi-me e fui selecionado. As aulas — que eram na verdade rodas de conversa sobre literatura — aconteciam nas manhãs de sábado, e ao fim delas cada aluno desenvolveu um capítulo de romance, posteriormente publicado na coletânea “Ampliando Horizontes: Poesia e Ficção Ano 3”. Comprei Fantasma nessa época. A história trata de um arquiteto frustrado que fica obcecado pelo poeta Paulo Leminski. Aproveito para indicar outro de Castello, um que li: Inventário das Sombras. Nele há o texto sobre Clarice e outros perfis de escritores célebres.
MERIDIANO DE SANGUE – CORMAC MCCARTHY
Essa é uma daquelas obras cuja aura é mais pesada que o próprio livro. Como Ulysses, de James Joyce, ou Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Sei pouco da história do livro. O que ouvi é que Meridiano de Sangue é um épico do Velho Oeste americano extremamente violento. Comprei em uma viagem que fiz aos Estados Unidos, na livraria Barnes & Noble.
Não sei se daqui 5 ou 50 anos, mas um dia reescreverei esta crônica. Não garanto que de peito estufado, dizendo orgulhosamente ter vencido a minha biblioteca. Afinal, ela se constrói todos os dias, e a graça da coisa, no fim das contas, é essa. Jô Soares dizia que o leitor tem dois prazeres: um quando compra e outro quando lê um livro. Adiciono mais um: o de empresta-lo. É uma boa forma de manutenção das amizades e das bibliotecas. Aos interessados, tenho dezenas, loucos para serem lidos. Se não conseguirem meu contato, ao menos sabem onde me encontrar. Até lá.
