A vida é feita da dilacerante sensação de que não conseguimos recuperar memórias, reviver momentos ou fazer alguém nos olhar da mesma forma como um dia olhou. Crescemos acreditando que tudo pode ser resolvido, que basta insistir um pouco mais — mas há coisas que simplesmente não voltam. E essa é uma dor difícil de lidar.
Digo por mim. Enquanto escrevo este texto, penso em tudo aquilo que já não existe em mim. Conversas que não vão se repetir, versões minhas que ficaram em alguma esquina do tempo, pessoas que um dia souberam exatamente quem eu era e que hoje não sabem se estou de barba ou bigode. É estranho perceber que mudamos sem qualquer tipo de aviso prévio.
Eu queria estar em todos os lugares. Queria conhecer todas as existências possíveis. Há em mim uma vontade quase infantil de permanecer, como se viver fosse uma tentativa constante de deixar minha marca nas pessoas e lugares. Luto contra a ideia de ser efêmero. Não sei lidar com o fato de que fui, sou e serei passageiro.
Existem olhares e sorrisos que me fazem acreditar, ainda que por segundos, na possibilidade do eterno. Às vezes vêm de pessoas que já não fazem parte da minha vida. Às vezes vêm de quem está aqui, agora, mas pode não estar amanhã. Quando estamos afogados nos próprios sentimentos, esquecemos que o outro também carrega seus naufrágios.
Meus arrependimentos nunca foram materiais. Não me dói o dinheiro que deixei de ganhar ou as oportunidades que passaram. O que me pesa é lembrar da forma como tratei alguém num dia difícil. No fundo, queria ser julgado não pelos meus erros, mas pela maneira como tento corrigi-los. O problema é que, muitas vezes, sou incapaz de me perdoar.
Perder alguém é perder o som específico da risada daquela pessoa. É esquecer aos poucos uma gíria que só ela usava. É não sentir mais o jeito exato como apertava sua mão. A ausência está longe de ser abstrata — ela tem textura, tem temperatura. E, quem sente, sabe que existe um horário do dia em que dói mais.
Sinto saudades de pessoas que talvez jamais imaginariam isso. Gente com quem briguei. Gente que seguiu a própria vida. Gente que talvez nem saiba que ainda ocupa espaço em mim. Talvez o medo verdadeiro não seja o de morrer, mas o de não permanecer em ninguém.
Demorei a entender que viver não precisa ser um exercício permanente de nostalgia ou antecipação. Não precisamos morar no passado nem ansiar o futuro o tempo inteiro. O presente existe, mesmo que seja imperfeito. E ele é tudo o que temos.
Às vezes penso em como seria se eu pudesse colar nas minhas retinas pequenos lembretes silenciosos: “escute mais”, “fique mais um pouco”, “diga o que sente enquanto há tempo”. Não acho que isso seria trair minha natureza, mas justamente o contrário — o esforço de me tornar aquilo que sinto que deveria ser.
Hoje eu disse para alguém que a admiro. E isso, para mim, é o suficiente para o início da revolução. Percebi que guardar sentimentos não me torna mais profundo, apenas mais solitário e desinteressante. Quero ocupar espaço no máximo de alguéns que eu conseguir.
Quando os vermes comerem nossos corpos, quero que algo de mim já tenha florescido antes — em uma palavra bonita, em um pedido de desculpas. Se pudesse escolher, queria virar uma bananeira.
Talvez a eternidade não esteja em durar para sempre, mas em deixar sua marca em alguém de forma irreversível. Quem precisa de recados na retina se podemos marcar o coração alheio?
Por enquanto, espero ser bananeira. E espero receber um jardim cheio de morangos, laranjas, maçãs e kiwis enquanto estou por aí. Se depender de mim, muitos sorrisos conhecerão o sabor da eternidade — da fruta favorita de cada um!

