Jeca Tatu, a pérola escondida da Prudente

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No trecho mais tranquilo da Alameda, Jeca Tatu reúne cerveja gelada, cardápio de boteco e ambiente ideal para encontros

 

Perder-se nas ruas. Tropeçar em blocos soltos de granito. Machucar a lombar depois de pisar em um buraco. Admirar pichações. Odiar pichações. Conhecer a história de um edifício abandonado. Lembrar de como era o edifício antes de virar farmácia. Conversar com atendentes de padaria. Desviar de bêbados. Ir de encontro às bebidas. Perder-se em um bar. Confundir uma cachaça barata com uma cara. Queimar a boca com jambu. Reclamar do preço da cerveja. Não entender o motivo de não ter litrão de original. Repetir o processo. Toda segunda. Segunda? Sim. Afinal, ir para o bar logo no primeiro dia da semana é um ato de resistência contra o capital — dos mais ousados e revolucionários.

Há alguns anos, a Alameda Prudente de Moraes ainda não era o coração boêmio da cidade que conhecemos hoje. Foi em 2023, com reformas que trouxeram bancos, nova pavimentação e calçadas ampliadas, que a rua assumiu o posto de point dos jovens boêmios curitibanos.

O clima mais efervescente e gandaieiro se concentra logo nas duas primeiras quadras — tendo o clássico bar de esquina Janela como “ponto zero” da Prudente. Nas sextas e sábados, a via, que durante o dia exibe um glamour digno de cenários que só vemos no Google Maps, se transforma em carnaval.

As calçadas ficam molhadas de todo tipo de líquido; as pessoas perdem o receio dos carros; olhares se cruzam; e, em algum canto, surgem beijos tímidos de amantes prestes a seguir para uma balada próxima.

Alguns bares até ganharam fama entre o público. Ir à Prudente, quase sempre, significa pegar um double chopp no Ruína, um Jorge Amado no Caramelo ou, para quem pode gastar um pouco mais, uma taça de vinho no Pinot. O cosmos da Alameda é fértil para os mais diversos negócios — até bar de samba abriu por lá.

Mas é depois do cruzamento com a Professor Fernando Moreira, que rasga a Alameda em duas, que mora uma pérola ainda pouco conhecida pelos beberrões da cidade. O boteco Jeca Tatu, de fachada branca com detalhes em azul-bebê, reúne ambiente acolhedor, boa comida e cerveja sempre gelada.

Nos dias mais animados, apresentações de MPB tomam conta do interior do bar, frequentado por jovens de cabelos domados por pomadas modeladoras de efeito seco. Na parede ao lado do caixa, imagens de brasileiros célebres nos convidam a entrar no clima “Jeca Tatu”. Quem ousa deixar a cerveja esquentar é julgado por Belo, Cartola, Adriano Imperador e Agostinho Carrara — se eu fosse você, viraria esse litrão o quanto antes.

O cardápio completa o bingo que todo boteco precisa ter: sandubas, torresmo, carne de onça, pastéis e, claro… eles, os bolinhos, dos mais variados sabores. Destaque especial para o bolinho de aipim com carne-seca, que arrancou suspiros deste humilde repórter.

Com formato diferente das esferas massudas a que estamos habituados, os bolinhos do Jeca Tatu lembram pequenos quibes de padaria de esquina. E isso não tira mérito da receita do boteco — muito pelo contrário.

A casquinha crocante por fora, combinada à massa de aipim macia, cria o contraste perfeito com a carne-seca. Para acompanhar, uma deliciosa maionese verde, em quantidade generosa para chuchar os bolinhos, faz valer cada um dos 28 reais.

Como é padrão na Prudente, o Jeca Tatu também espalha mesas pela calçada. A diferença é que, longe do coração mais caótico da rua, onde a multidão aperta e dificulta qualquer ir e vir, o boteco azul-bebê oferece um ambiente tranquilo e convidativo, que o torna uma ótima escolha para dates dos mais variados tipos: difícil não se deixar levar pelo charme das paredes brancas e pela atmosfera despretensiosa do lugar. Se você quer alimentar uma paixão em sua vida, comece a frequentar o Jeca Tatu — de preferência, com boas companhias.

No final das contas, frequentar um bar é um ritual que se repete, mas nunca se esgota. As aventuras mundanas podem até parecer iguais aos olhos desatentos, mas, para um bom bamba das paredes rebocadas e dos copos americanos, a graça mora justamente aí: nos detalhes que só aparecem a quem volta. Repetir o processo. Toda segunda, no Pauta Clandestina. 

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